quarta-feira, 11 de março de 2009

A casa.

Um homem mesquinho entra na casa com seus sapatos sujos, larga as meias em cima do sofá e o resto da roupa mais à frente, na porta do banheiro. Toma banho. Molha o resto da casa enquanto se arruma, alinha-se, perfuma-se e logo vai embora, deixando tudo assim, uma zona. Sem se preocupar com aquela casa, é só mais um lugar para ele se abrigar, aconchegar e descansar quando as coisas não estão muito bem daquela porta pra fora.

Fecha a porta e deixa as luzes acessas, nem as luzes ele apagou, é para mostrar, de mais uma forma que esteve ali. É assim que ele sempre faz, vem quando tudo está arrumado e transforma num inferno, desorganizado e cheio de roupa suja à ser lavada. Veja como é fácil para ele. Pena que não é tão fácil assim para a casa.

Casa, pobre casa, fica a mercê da vontade dele, e quando finalmente se arruma por completo, seca a água que se misturou com a sujeira de seus sapatos e se transformou em uma lama que cobria grande parte do chão. E acaba com toda a roupa suja que existia, ele volta.

Justamente na hora que ela tinha acabado o trabalho, quando não havia mais lembranças nem vestígios dele, e até as luzes que martelavam na casa a idéia que ele já havia posto tantas vezes a mão em suas paredes tinham sido apagadas. E a memória que ele se deitou em sua cama exausto e falou dos problemas já era vaga, quase esquecida pela casa. Mas quem diria que no começo até zelo ele tinha por ela, falando com orgulho:”minha casa, minha.”

Agora a casa não era mais uma novidade, era a mesma de sempre, branca e boba, sem graça. E ele não se importa mais com aquela mesmice toda, só quando precisa de abrigo é claro. Daquele ombro amigo, depois de noites e mais noites de farra sem a menor consideração pela pobre da casa, se ela estava bem, se sentia saudades.

Ela muito bem podia trocar a fechadura enquanto ele estivesse fora, então nunca mais isso tudo aconteceria. A roupa suja ou o chão enlameado. Muito menos a luz acesa, como ela odiava aquela luz acesa. Ela mostrava coisas que a casa a todo custo tentava não ver, mesmo estando dentro de si.

Mas quem disse que a casa tinha coragem de trocar a fechadura? Não, não tinha. E no fundo acho que não queria também. Ela tinha se apegado, maldito apego, só atrapalha as coisas. Então esperava, por ele, por uma mudança, por alguma esperança. Mesmo sabendo que seria impossível. E quando ela arrumava tudo até imaginava que estivesse livre dele, que podia esperar um novo morador. Mas nunca trocava a fechadura, talvez porque quando ele rodava a chave na porta, por aquele breve estante que ela sabia que era ele seu coração disparasse. E ela abrisse as janelas para o sol entrar. Mesmo sabendo que quando ele chegasse não olharia para ela. Ela que esperava um conforto, um gesto de carinho, só recebia lama e roupa suja, nada mais.

20/11/08

2 comentários:

  1. Parece com alguem que eu conheço?

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  2. Parece com alguem que eu conheço? [2]
    ou só muita coincidência?

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