Durante algum tempo eu chorei e me debati pela vontade insana de preservar aquele momento sagrado que eu lembrava já com tantas distorções. Gritei, perdi o controle, agi mal. Nada adiantou. Quanto mais lutava, mais parecia que se perdia. Nada nunca era tão bom quando já tinha sido. A agonia e a aflição tomaram conta de mim, e então aconteceu:
Num desses dias em que se acorda mais tarde sem medo de ter perdido a manhã sonhando, abri os olhos descompromissada com a vida e pensei em você. Que surpresa a minha, vi tudo diferente. Não tive mais medo da perda, do afastamento, do fim. Consegui enxergar o que realmente importava.
Vi em cada instante a sua presença fortemente implantada, e minha consciência já não pesou por tudo que deixamos de fazer ou pelos planos que nós não concretizamos. Nosso maior plano estava feito! Sem dívidas, sem peso, sem culpa, sem remorso. O compartilhar foi tão essencial e gentil que nossas almas riram, livres.
O tempo muda, os valores foram todos comprometidos, as percepções se aguçaram e os conflitos cegaram a gente para tanta coisa. Nossos olhos já não se reconhecem, e nossas mãos tocam desajeitadamente o corpo do outro procurando nele uma qualidade inventada, um desejo novo, um aspecto inatingível.
Mas algo em nós, o nosso instinto, que insiste em não se comunicar com nossa racionalidade superprotetora ou reverter os orgulhos infantis. Essa força indomável, que não se sabe o que realmente quer, me atrai para você, lança meu corpo ao encontro do seu. Para qualquer toque, qualquer contato, qualquer esperança de uma ligação eterna.
Mas nossos corações insistem em não se reconhecerem.
E eu parto.
Te parto.
Que parto! É o de buscar em outro o sentimento de completude que só concretizo ao teu lado, e a ansiedade ao seu lado de tentar identificar em ti um algo que não consigo mais enxergar, pela força cruel da vida. Meu amor de criança, minhas lutinhas e meus fazem – de – conta não podem ser entendidos de outra forma além de uma felicidade simples e leve. Que eu continuo a carregar do seu lado, porque nenhuma força, nem o acaso, conseguiram, até agora, apagar essa ligação indizível que criamos.
Eles não entendem.
Mas mal é que não faz;
Eu dedico a minha loucura e meus jardins à você.

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