De primeiro era perfeita, sem marcas ou arranhões, como um brinquedo novo. O tempo foi passando, e assim ela foi ganhando remendos. Hoje traz na alma e no coração marcas que as pessoas foram deixando pelo caminho. Por vezes seu sorriso descostura, os botões de seus olhos caem, mas sempre voltam pro lugar. Sempre tem alguém pra vir costurar.
Mas nem sempre foi assim, havia uma época que nada era remendado ou gasto. Começou com um alinhavo ali, um acertinho acolá e quando se viu já estava irreconhecível. Não parecia com o que era, tinha remendos, retalhos, marcas. Era outra, uma verdadeira boneca de retalhos, feita mais pelas pessoas que passavam do que pelo que originalmente era.
Cada pessoa que ia passando deixava um pedaço. Dava um ponto, um remendo, deixava um traço. E ela vai assim vivendo dos retalhos diários, das costuras fora do lugar, dos bordados fora de hora. E por mais que se pareçam vistos de longe nenhum retalho ou ponto é igual, nem no formando muito menos no tamanho. Uns são bem coloridos, outros já mais apagadinhos e têm aqueles, que por mais que se costure ainda tem um mau acabamento, um ponto entreaberto.
Por mais que tente esconder há um lugar na boneca que vive cheio de remendos e ali é visível faltar um pedaço de pano, é bem no meio do peito, no coração. Lá a muito não aparece um retalho que encaixe, muito menos um ponto que não desfaça com um leve movimento. Daqui a pouco o tecido dali rasga de novo e se ganha mais um remendo pra sua coleção. Já não se sabe ao certo quantos têm, e muito menos quantos mais virão.
Ela está cansada de remendos, cansada de tantas marcas ou retalhos que não encaixam. Ela quer um certo, um que fique bem, que a complete. Mas já não procura, não sabe aonde irá achá-lo só sabe que até agora nenhum lhe serviu. Uns porque a cor não combinava, outros por simplesmente não terem o formato certo. E hoje vive assim, tentando achar um retalho que sirva, talvez por não querer mais mostrar todos aqueles remendos...
domingo, 23 de novembro de 2008
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