É mais fácil dizer que eu te odeio. Me prender nesse
sentimento e continuar saboreando-o, tirando dele essa falsa segurança..
Não, eu não te odeio. Alguns dias é preferível que odiasse.
Sim, eu tenho essa necessidade de provar para você que eu não sou todas aquelas
monstruosidades que você falou, mas é só para que você sinta, de algum modo, a
falta que eu lhe faço ou como eu era uma pessoa digna de estar do seu lado.
Talvez seja insuportável a ideia de que daqui a alguns anos você não consiga se
lembrar de mim, já que existe a certeza, que talvez seja cruel, que nunca o
apagarei completamente da minha carne.
Me perdoe por ter te abandonado, mas eu tinha me abandonado
antes, e tentei te preservar de toda a destruição que eu fui capaz de gerar.
Você foi o único que eu afastei por amar e por fatalidade nunca entendeu. Não
adianta culpar só você por tudo que se sucedeu. Mesmo tendo a convicção que
suas atitudes foram mesquinhas, impróprias e maldosas, entendo que você
precisava fazer aquilo para não se ferir ainda mais pela minha presença. Me
machucar tardava a sua dor..
É tão feio, mas eu compreendo.
O desgosto de olhar para você não mudou nesse quase um ano.
O desgosto de ver o ser amado se tornar tão vivamente odiado. De não reconhecer
mais as suas palavras que antes nunca tinham sido realmente grosseiras ou egoístas.
Sempre acreditei que os fins tinham de ser bonitos, para que a dor da perda
fosse tolerável. Deve ser, dentre outros fatores, por isso que o nosso
rompimento tenha sido tão destrutivo.
Nos tornamos amargurados, não lembramos mais de quem
costumávamos ser um ao lado do outro. Nos comportamos como animais acuados. Que
vergonha.
Talvez nunca mais nos aproximemos, que exista sempre em
nossos contatos aquele clima de desconforto e aflição vagos, que a presença do
outro se torne intolerável sem porquê aparente. Fomos próximos demais e você
traiu a minha confiança pegando meus demônios e os jogando contra mim. Trabalho
todos os dias para não relembrar e me nutrir do ressentimento que isso me traz.
Mas não te odeio.
Ao menos não é de todo o mau o que sinto por você. Soa mais como uma inconformidade. Eu nunca
fui rápida para lidar com mudanças bruscas. Te deixar lá, e continuar convicta
na minha escolha, foi a maior mudança que eu tomei por conta própria. Não
poderia imaginar que gerasse essas consequências, que parecem se arrastar e
prolongar infinitamente, mesmo quando não há mais nada a ser destruído, dito,
interpretado ou resgatado.
Não tem conserto. Não tenho uma cura para limpar todo
pensamento venenoso que fico repetindo e recitando na minha mente sonsa. Tento
lembrar o que há de bonito em você, ou o que havia. E isso dói. Porque revive mais as suas traições. Te ver como
o vilão que me fez tão mal é mais fácil do que encarar o meu malfeitor como o
menino dos cabelos cacheados e o sorriso mais sereno do universo.
Hoje você não é nenhum dos dois. Sua imagem é de um estranho
que eu tenho alguma recordação perdida. Nos tornamos estranhos e inaceitáveis
para o outro. Entretanto, uma vez ou outra, cada vez mais esparsa, existe um
saudosismo quase lúdico de tudo que foi. O melhor que foi e que eu não consigo lembrar,
ainda que sinta que foram situações e momentos maravilhosos.
Essa deve ser a merda que existe em fins trágicos, eles
devoram o passado, e o que não é consumido é completamente reinterpretado pela
mente, transformando graça em maldade, afeto em uso. Nós somos toda uma
tragédia que eu quero que tenha um fim.
Um fim interno, real.
Eu te perdoo, sem saber o que essas palavras significam na
verdade. E eu espero que possa fazer o mesmo algum dia. Eu vi nas suas palavras
arrependimento de todo o mal que me causou, entretanto a sua ferida continuava
aberta. Depois do meu impulso inicial de te odiar e achar graça e força nisso,
eu quase senti dor por ler nas suas palavras conclusões tão tristes e sentidas.
Mas foi mais fácil te odiar e não aceitar as suas desculpas até o fim.
Entenda, eu precisei digerir. Foi o momento em que eu tive
todas as respostas, e ouvi, da sua boca, que todas as humilhações foram, de
alguma forma, planejadas. Você é analítico demais e isso o torna perigoso.
Poderia dizer até que essencialmente é mau. No entanto lembro que me apaixonei
pela sua bondade antes de tudo. E não posso ter certeza alguma, só torcer que
não tenha sido uma mudança, mas a outra face do mesmo ser humano.
Extremados. Deslocados. Bondosos. Malvados. Ressentidos.
Magoados. Humilhados. Nós afinal temos bastante em comum. Eu não te odeio. Ao
menos não tanto quanto ontem. Talvez seja um processo que infelizmente esteja
durando tempo demais.
Que seja.
Você ainda não me perdoou. Eu vi nas suas palavras. Há mais
magoa e culpa do que perdão.
Então, dure o tempo que durar.
Mesmo que eu tenha de repetir
todos os dias:
te perdoo.

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