É a terceira noite seguida. O começo de mais um ciclo
aparentemente infinito de insônia e improdutividade. ‘Eu sei, estou ficando
velha demais para isso, quando menos notar conseguirei dormir por 15 horas e
não terei vontade de me levantar nunca mais.’ – Geralmente é o que eu consigo.
Variando do cansaço quase crônico até a preguiça paralisante. Sempre. Semana
após semana. A ultima vez que fui produtiva por um período maior que algumas
horas? Já nem me lembro. Minha mente
está tirando o melhor de mim.
Não consigo mais dormir sozinha, nem no escuro. Como se
alguma vez eu já tivesse tido algum parceiro dormindo comigo, ou um abajur que
prestasse. Incrível a capacidade de me acostumar com ideias que nunca
aconteceram: Alguém para abraçar durante a noite, para eu tomar meu café preto
e amargo enquanto assisto dormir nessas madrugadas que as cinco da manha eu me
levanto porque não há mais como dormir nem sonhar sem ser atormentada por uma
infinidade de ansiedades.
Eu me levanto cedo, ando em volta da casa, me sento no sofá
no escuro. Penso em desistir. Não há do
que mais me ausentar. Penso em telefonar. Não existe ninguém do outro
lado para ouvir minha ansiedade. Tento escrever, e logo percebo que ficarei
presa a esse outro vício para sempre. Cotidiano: Caos (bem) adequado aos meus
horários. O importante é ser produtiva,
passar naquelas matérias, sair de vez em quando para beber e sorrir e beijar e
aparentar êxtase e felicidade (mesmo que o desejo seja cortar os pulsos em
plena avenida deserta e se ver sangrar tranquila no meio fio). Eu sou mais
depressiva antes do sol nascer. Existe algo na madrugada que me incentiva ou
atormenta. Algumas vezes sinto que não irei conseguir sobreviver mais uma noite.
Outras tento prolonga-las infinitamente com lágrimas nos olhos sabendo que logo
amanhecerá e eu terei que levantar e ir viver. E sorrir. E tomar café ruim do
outro lado da cidade. Só porque isso é meu futuro. Tudo se resume a isso.
Talvez tenha de ser assim, mas pra mim, de alguma forma, é ainda muito pouco.

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